quinta-feira, 10 de maio de 2012

A COMPRA DA DELTA E A ARTE DA MENTIRA.

Reportagem retirada do site www.brasil247.com.br

Meirelles, a carta de Dilma para salvar o PAC
Venda da Delta para o JBS pretende tirar plano de obras do governo das mãos do “leproso” Fernando Cavendish para colocá-lo sob a guarda do banqueiro Henrique Meirelles;
BNDES tem mais de 30% do capital da empresa compradora;
Futuro novo dono, se o negócio vingar, José Batista Jr. alimenta sonho político de ser governador;
Vai funcionar?
04 de Maio de 2012 às 08:58
Marco Damiani _247 – Depois da “engenhosa”, como já vai sendo vista pelo mercado, mudança nas regras da poupança, o governo parece perto de executar outra manobra elaborada, agora no setor de infraestrutura e, mais propriamente, em seu centro nervoso, o PAC. Para tanto, o grupo JBS, que tem mais de 30% do seu capital pertencente ao BNDES, se move, empurrado pelo governo, na direção de comprar a Delta Engenharia, maior empreiteira do Plano de Aceleração do Crescimento, com obras contratadas em diferentes Estados.
Na prática, o negócio visa tirar o destino do programa central do governo Dilma das mãos de um empresário que se auto-definiu como leproso, Fernando Cavendish, para colocá-lo sob a guarda de uma das poucas unanimidades positivas do País, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.
Ele é nada menos que o presidente da holding J&F, que controla o JBS. Nessa posição, tem a missão de atender aos planos dos irmãos Joesley e José Batista Jr., controladores da companhia, e, em igual ou até maior medida, atentar pelos interesses do governo, representados no capital investido pelo BNDESPar. “Esse grupo está crescendo e se diversificando. Vai ser uma experiência desafiadora”, disse o ex-presidente do Banco Central em março deste ano, ao tomar posse na holding.

Por Meirelles passa, desde já, toda a arquitetura da aquisição em curso. Isso não significa, porém, que, caso se consume, o plano esteja fadado ao sucesso. Bem ao contrário, os obstáculos são enormes, e o histórico das duas empresas é um complicador real e efetivo para o final feliz. Mesmo assim, a alternativa que envolve, dentro do governo, cabeças como a do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, tem tudo para ser levada adiante.
O receio de que a quebra da Delta estilhace consigo a vitrine do PAC é grande demais para permitir que o governo não tome alguma iniciativa.

Exposta à execração pública, com seu presidente afastado das funções, abrindo mão de missões centrais como a reforma do Maracanã e praticando calotes milionários nos consórcios dos quais participa junto a gigantes da construção civil, a Delta vive a iminência de quebrar. Por isso mesmo, não deverá custar muito.
Ao mesmo tempo, a empresa tem uma série de contratos em vigor, o que projetaria, a seu favor, um bom fluxo de caixa. Em razão da forte participação do BNDES no capital do JBS – o banco promoveu, dois anos atrás, uma injeção de R$3,8 bilhões de capital na companhia -, a consumação do negócio que levaria o grupo para o setor da construção civil criaria uma situação inusitada.
O BNDES poderá estar, em diversos canteiros de obras, na ponta que empresta recursos para a sua realização e, simultaneamente, na posição de se beneficiar, como participante de uma empreiteira, de pagamentos feitos em dia – ou ser prejudicado por atrasos.

CONCORRENTE BERTIN RECUOU - A partir do governo Lula, o JBS foi um dos grupos mais beneficiados pelo apoio oficial.
Por meio do BNDES, obteve respaldo financeiro para se tornar o maior frigorífico do planeta. Um prodígio para qualquer companhia, quanto mais essa que nasceu como um simples açougue, em Anápolis, Goiás.
Em razão de um forte aumento de capital, de R$ 3,8 bilhões, realizado dois anos atrás, o que elevou a presença da BNDESPar a mais de 30% das ações, o JBS tem recursos e, aparentemente, goza de boa saúde financeira. Isso não tira, porém, sua condição de neófito no ramo da construção civil.
O grupo Bertin, seu concorrente no setor de carnes, procurou executar o mesmo tipo de salto para a construção civil.
Integrou-se ao consórcio que venceu a concorrência para realizar as obras da usina de Belo Monte, mas recuou e desistiu de sua participação, assustado com a alta exigência de capital para tocar a obra.

Há, como complicador, um elemento político. O empresário José Batista Jr., que controla a companhia ao lado do irmão Wesley, que é o presidente executivo do grupo, tem planos de ser candidato a governador de Goiás nas próximas eleições.
Como se sabe, a mistura de empreiteiras e política costuma provocar muito mais problemas do que promover soluções. Esta será mais uma missão para Meirelles resolver, ele que está perto de virar tocador de obras.

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Delta com o governo federal.
A presidente da República quer saber se há irregularidade em alguma dessas obras.
O Brasil assiste embevecido a mais uma cartada moralizadora da gerente. Mas o ideal seria ela pedir a sua assessoria, antes do pente-fino, uns óculos de grau.
Se Dilma não enxergou o que a Delta andou fazendo com seu governo, está correndo perigo: pode tropeçar a qualquer momento num desses sacos de dinheiro que atravessam seu caminho, rumo às obras superfaturadas do PAC.
Como todos sabem, até porque Lula cansou de avisar, Dilma é a mãe do PAC. Por uma dessas coincidências da vida, a Delta é a empreiteira campeã do PAC. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), as irregularidades nas obras tocadas pela Delta vêm desde 2007.
A mãe do PAC teve pelo menos cinco anos para enxergar com quem seu filho estava se metendo. E a Delta era a principal companhia do menino, andando com ele Brasil afora num variado roteiro de traquinagens. Mas as mães de hoje em dia são muito ocupadas, não têm tempo para as crianças.
Felizmente, sempre tem uma babá, uma vizinha, uma amiga atenta para abrir os olhos dessas mães distraídas.
Dilma teve essa sorte, em setembro de 2010. A CGU, que vive controlando a vida alheia – uma espécie de bisbilhoteira do bem –, deu o serviço completo: contou a Dilma e Lula (a mãe e o padrasto) que o PAC vinha sendo desencaminhado pela Delta. Superfaturamento, fraudes em licitações, pagamento de propinas e variadas modalidades de desvio de dinheiro público – inclusive com criminosa adulteração de materiais em obras de infraestrutura – estavam entre as molecagens da empreiteira com o filho prodígio da então candidata a presidente.
De posse do relatório da CGU, expondo a farra da Delta nas obras do PAC, o que fez Dilma Rousseff? Eleita presidente, assinou mais 31 contratos com a Delta.
Talvez seja bom explicar de novo, para os leitores distraídos como a mãe do PAC: depois da comunicação à administração federal sobre as irregularidades da Delta, a empreiteira recebeu quase R$ 1 bilhão do governo Dilma.
Agora, a presidente anuncia publicamente que passará um pente-fino nesses contratos, e a plateia aplaude a faxina. Não só aplaude, como dá novo recorde de aprovação a esse mesmo governo Dilma (64% no Datafolha), destacando o quesito moralização. Infelizmente, pente-fino não pega conto do vigário.
Mas o show tem de continuar. E, já que o público está gostando, a presidente se espalha no picadeiro.
Depois da farra da Delta, que teve seu filé-mignon no famigerado Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Dilma diz que quer saber se a faxina no órgão favoreceu Carlinhos Cachoeira. Tradução: depois de ter de demitir apadrinhados de seus aliados porque a imprensa revelou suas negociatas, Dilma quer ver se ainda dá para convencer a plateia de que o escândalo foi plantado pelo bicheiro.
É claro que dá: se Lula repete por aí que o mensalão não existiu (e não foi internado por causa disso), por que não buzinar a versão de que o caso Dnit foi uma criação de Cachoeira?
Pelo que revelam as escutas telefônicas da Polícia Federal, o bicheiro operava com a Delta na corrupção de agentes públicos. Dilma e o PT são candidatos a vítimas desse esquema – daí Lula ter forçado a CPI do Cachoeira.
O problema na montagem dessa literatura é que a Delta, mesmo depois da revelação do esquema e da prisão do bicheiro, continua recebendo dinheiro do governo Dilma – R$ 133 milhões só em 2012, e através do Dnit…
A atribulada mãe do PAC não notou a Delta, não percebeu Cachoeira, engordou o milionário esquema deles no Dnit durante anos por pura distração – e agora vai moralizar tudo isso com seu pente-fino mágico.
Na próxima rodada das pesquisas de opinião, o vigilante povo brasileiro saberá reconhecer mais essa faxina da mulher destemida, dando-lhe novo recorde de aprovação.
Nesse ritmo, a CPI do Cachoeira acabará concluindo que até o escândalo do mensalão foi provocado pelo bicheiro (essa tese já existe). E Dilma conquistará para o PT o monopólio da inocência.
 
Fonte: revista Época
 

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