Já nas manifestações de julho do ano passado o grito das ruas era claro: educação, saúde, segurança, transportes público de qualidade, moralidade política, ética, desenvolvimento, etc. O povo não se manifestou contra a Copa do Mundo especificamente, nem contra o futebol ou seus jogadores, afinal, ainda são paixão nacional junto com o carnaval.
O que o povo gritou e o governo fez ouvidos moucos, foi que não queriam que fossem priorizados gastos exorbitantes com estádios de futebol, com priorização de direitos comerciais para a FIFA, enquanto problemas sociais graves continuavam a ser negligenciados, ou pior, empurrados com a barriga, em negociações intermináveis que em nada resultam.
Há uma questão clara que não entra na cabeça do povo por mais que a propaganda governamental e seus discursos procurem demonstrar o contrário. Se a Copa é para trazer benefícios para a sociedade como um todo, então porque não traz? Por que o governo, na época Lula, contrariando as posições da FIFA, decidiu fazer um evento dessa magnitude por todo o país, contra todas as expectativas logísticas que afirmavam que isso seria temerário? Qual contrapartida recebe a sociedade já que os tais empregos gerados em função da Copa, decorrem de obras superfaturadas, como o Itaquerão em SP, com um custo 254% acima do previsto? Como podemos explicar para a população, tão carente de atendimento médico de qualidade (O governo inventou o Mais Médicos), que somente a obra do Maracanã daria para manter um dos maiores hospitais de referencia em atendimento e ensino médico no Brasil, o Hospital Antonio Pedro em Niterói/RJ, em pleno funcionamento por muitos anos? Como o país pode patrocinar uma Copa tão cara (a mais cara do mundo) quando estradas, escolas, salários de funcionários públicos nas mais diversas áreas; bem como os próprios órgãos, estão defasados e sucateados?
O povo pode ser alienado, mas não é burro, nem cego, e percebe claramente, na pele, que entre a propaganda e os discursos existem enormes diferenças. Não se coloca contra a Copa, como chegou a afirmar o alienado Pelé, mas contrário ao descaso governamental na gestão da coisa pública, ao estabelecer prioridades que até podem favorecer alguns setores da sociedade, como empreiteiras, rede hoteleira, etc., mas certamente não favorece ao trabalhador de modo geral, nem privado, nem público. Aliás, no regime imposto pela FIFA para copa que Lula decidiu fazer, o trabalhador de modo geral foi afastado. Só fica o que interessa à FIFA.
Um exemplo simples disso, ocorreu em Minas Gerais, Belo Horizonte, onde a Feira de Arte e Artesanato que ocorre há mais de 14 anos no entorno do Mineirão, foi simplesmente banida do local, para atender exigências da FIFA. Lá, durante a Copa, não podem vender, nem mostrar a arte mineira, nem a musicalidade, porque isso não interessa ao “Padrão FIFA”. Então perguntam os feirantes: “Que benefício lhes traz a Copa, se exatamente durante ela, quando poderiam expor suas mercadorias e tornarem-se conhecidos internacionalmente, são expulsos? Conceito equivocado do benefício da Copa que o governo utiliza.
O deputado federal Romário já afirmava desde quando o Brasil foi escolhido como sede do evento que tudo seria uma grande jogada, onde faturariam somente os grandes interesses privados, aliados ao governo. Sem bola de cristal, disse que as obras atrasariam, seriam superfaturadas e ao final o governo liberaria licitações, para os mesmos bezerros que mamam nas tetas da nação.
O que presenciamos hoje em SP,RJ,MG,DF,PE, etc. são protestos da mais variada ordem, que envolvem trabalhadores de todos os segmentos sociais, até mesmo contra decisão de seus próprios sindicatos, como a greve dos rodoviários do RJ. São servidores públicos, da segurança pública, professores, médicos, enfermeiros, sem teto, sem terras ( a tal reforma agrária nem de perto aconteceu), enfim, quase todas as categorias do país, num sonoro desconforto com o atual estado de coisas.
Como nas manifestações do ano anterior, o governo conta com as estratégias da propaganda, da vitória da Seleção Brasileira, do recurso de amedrontar o povo, apostando numa fala retórica de promessas ilusórias ou de alguma medida paliativa de efeito imediatista, capazes de fazer o povo esquecer ou esfriar os protestos. Tudo isso sem falar que os movimentos baderneiros, as depredações e saques, favorecem o discurso que tudo está sendo insuflado pelas oposições e pelas elites burguesas que tanto adoram criticar. Assim, como na projeção psicanalítica, nada é culpa do governo ou de seus aliados, mas das elites, da burguesia e da oposição, porque em sua visão egocêntrica não admitem possíveis falhas e acreditam-se salvadores da pátria.
Há uma insatisfação, que o governo, na fala autoritária da Presidente da República, prefere não ver ou atribuir a qualquer outra coisa que não sejam seus próprios erros. Humildade é uma palavra que não passa por suas cabeças, menos por suas falas. Incapazes de ouvir o povo e corrigir os rumos, preferem apostar na alienação e na compra de votos pela via dos benefícios.
Recusam-se a reconhecer o erro estratégico de realizar um evento da magnitude de um campeonato mundial de futebol, ao invés de investir no país e no povo para tornarem-se verdadeiramente livres e independentes, então sim, economicamente e estruturalmente viáveis para promover um grande espetáculo.
Colocam tapumes e “tapeamentos” para o estrangeiro não ver, mas serão capazes de impedir o povo nas ruas?
Vexame se houver, não será unicamente da Seleção, até porque nós que gostamos de um bom futebol, mesmo nessas circunstâncias não nos empenhando na torcida, não a crucificaremos seja qual for o resultado. Vexame também não será do povo como tentam fazer crer alguns governistas, pois não há vergonha em reivindicar o que é justo e deveria ser obrigação do estado realizar como prioridade. Vergonha é se omitir, acovardar-se.
Vergonha mesmo será o mundo inteiro ver e conhecer o que significa um governo irresponsável, que mente, manipula, distorce os fatos, acoberta infratores da lei, ameaça, retalia, e que acima de tudo, é dominado por uma megalomania e uma sede perversa de poder, para a qual é capaz de utilizar os mais vis recursos.
slrm (15maio2014)






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